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sábado, 20 de novembro de 2010

Dúvidas de Quem Pedala

Não sei se pedalo para escrever ou se escrevo para pedalar.
Esta dúvida, às vezes, me deixa meio confuso.
Que interesse, me pergunto, podem ter no que escrevo aqueles, creio que a maioria, cujo foco é objetivamente pedalar?
Mas, ao mesmo tempo, que interesse podem ter aqueles que sequer sabem andar de bicicleta?
Curiosamente, no entanto, entre estes últimos estão alguns dos que se sentem bem à vontade neste pedalar metafísico em que todas as trilhas estão abertas ao sonho e à imaginação.
Trilhas que, distante do burburinho e da hostilidade das ruas, nos levam por sendas rodeadas de bosques e margeadas de flores.
Sendas nas quais o ar que se respira é puro e nos impulsionamos apenas com a força de nossas pernas tomados de uma insuperável juventude na direção do último raio de luz do crespúsculo.
E ao chegarmos próximos, o mais próximos que podemos, com a sensação de que temos uma espécie de poder sobre nossas limitações, finalmente descemos da bicicleta e nos deitamos a cochilar ali mesmo, ao relento, espichados sobre a relva, à espera de que alguma coisa sobrenatural possa acontecer.
A menos que por algum motivo nos acordem, porque nosso sono será leve, talvez para pedir nosso auxílio para socorrer alguém que está em risco. Ou até, porque não conseguiremos nos afastar suficientemente dos perigos da cidade, para nos assaltar e nos roubar a bicicleta.
- A bicicleta ou a vida! talvez ainda nos ameacem.
Ao que, de pronto, sem hesitação, protegendo a bicicleta com nosso corpo, ofereceremos a vida.
(foto Anne Seltmann - Germany)

versão em francês >> Des Doutes de qui Pédale
versão em inglês >> Doubts of One Who Pedals