sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Bicicletas Anônimas

Sob o título acima a amiga e leitora de São Paulo, Susi Aissa ( com quem mantenho um acirrado debate sobre o fumo, que ela defende) decide fazer em seu blog uma alusão a Ciclistas Anônimos. Em viagem pela Rússia e Europa Central inclui algumas fotos de bicicletas, todas muito interessantes. A que aparece acima é de Viena e dá margem a várias leituras. Fica o convite à participação de quantos queiram manifestar sua visão. Inevitavelmente, é claro, a presença da corrente já conduz para determinados caminhos interpretativos. Mas serão caminhos que levam à liberdade ou que prolongam o encarceramento?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Um Sonho

Acordo-me, no meio da noite, com uma sensação indefinida.
Devia estar no meio de um sonho pois algumas lembranças estavam ainda bem presentes como se tivessem a ver com acontecimentos recentes.
Mas eram, também, lembranças meio confusas como costumam frequentemente serem as lembranças de sonhos.
Uma coisa, no entanto, parecia fora de dúvida.
Em meu sonho havia bicicletas, muitas bicicletas.
Mas as situações em que estavam presentes eram diversas.
Algumas lembravam a infância pois apareciam bicicletas pequenas, algumas até com rodinhas laterais para ajudar o equilíbrio. Havia vozes, vozes de outras crianças, quase um alarido em meio ao qual em certos momentos, ao fundo, ouvia alguém, que pela voz parecia ser minha mãe, chamar meu nome
Noutras eram bicicletas "exóticas" com dois lugares, ou de uma roda só, como as de circo, ou uma roda bem grande acompanhada de outra pequena. De novo podiam-se ouvir vozes, mas agora totalmente indistintas como as de uma grande platéia.
Já em outras situações apareciam grandes aglomerações de bicicletas como se estivessem a ponto de ocupar o mundo ou, caso oposto, bicicletas solitárias ou abandonadas e, neste caso, nada se ouvia pois se fazia um grande silêncio.
Mas o que mais me deixou perturbado foi a visão de uma espécie de galpão dentro do qual se espalhavam bicicletas diversas penduradas no teto ou, simplesmente, amontoadas umas sobre as outras.
A princípio poderia parecer uma oficina mas a forma como apareciam dispostas, como se aguardando alguma coisa, algum acontecimento, concedia ao quadro uma atmosfera de filme noir.
Ainda tentei entender do que se tratava. Algum lugar que conhecesse mas cuja lembrança não me vinha?
Ou uma espécie de alucinação onírica que podem surgir no mundo próprio dos sonhos?
Ou alguma outra coisa, uma premonição, uma profecia?
Sem ter respostas para estas dúvidas acho que voltei a dormir.
Mas em algum lugar dentro de nosso mundo as bicicletas de minha visão continuavam lá, à espera de serem chamadas para a missão a qual teriam sido destinadas ( foto Nicoamano, Malta)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Pedalando Junto

Já não pedalo sozinho.
Mesmo quando circulo com minha modesta bicicleta pela rua sem ter ninguém ao meu lado, sinto a presença de meus leitores, lembro-me de seus comentários e tenho a confortadora sensação de que não estou sózinho.
Olho para os lados, à frente, à esquerda e à direita, atrás de mim, e vejo companheiros de pedalada, que se tornaram "seguidores".
Dou-me conta de que, anônimos ou não, somos muitos e que, portanto, nossa solidão pode ser superada através da comunicação, da palavra, em particular da poesia.
Alguns, inclusive, através de seus comentários, identifico bem.
E me sinto agradecido.
Animo-me também a ter um cuidado especial com a bicicleta, minha companheira, buscando encontrar em sua pintura um pouco gasta, um brilho especial, e encorajado por estas companhias, a espichar o meu passeio.
Em certos momentos até, devo confessar, me imagino pedalando sem vontade de voltar, sem outro destino do que avançar convictamente , movido apenas pela força de minhas pernas, rumo da superação das limitações materiais e rumo da eternidade.
Me imagino, porque logo após, algumas quadras adiante, dou uma virada no guidão ( ou é minha bicicleta que dá por conta própria, não sei bem precisar) e retorno para as pequenas certezas de minha casa. ( foto Sergio Di Ponzio, Itália)

sábado, 19 de setembro de 2009

"Bike"

Sob o título “Bike”, o fotógrafo norte-americano Aref Nammari se dizendo motivado por meu interesse me dedica a foto acima a respeito da qual escrevi : “ gostaria de entender melhor porque bicicletas são tão atrativas. Terá algo a ver com sua simplicidade, com sua elegância? Bicicletas são sempre tão “magras” como se desenhadas a bico de pena... Neste caso particular há ainda a contribuir com estes elementos um refinado toque de abandono, de mistério...”
Em resposta Aref escreveu: “ Bicicletas são maravilhas de engenharia. Mas não apenas isto pois quem pode esquecer a emoção da infância e o sentimento de realização e liberdade quando finalmente temos o domínio de pedalar? Um dia pedalando do trabalho fui pego por uma tempestade sem relâmpagos, apenas chuva forte. Inicialmente eu fiquei desanimado porque resultei todo encharcado. No entanto, este desânimo rapidamente se dissipou e eu voltei aos tempos quando criança pedalava não me importando muito se estava extremamente quente ou chovendo torrencialmente. Será por isto que quando adultos amamos bicicletas?”

sábado, 29 de agosto de 2009

Ciclista Atemporal

Por um momento, na tarde ensolarada, o tráfego intenso de veículos se interrompe.
O ciclista aproveita, exatamente em um ponto onde ocorrem com frequencia acidentes de certa gravidade, para atravessar a rua.
Com muita calma, como se estivesse numa pequena cidade do interior.
Ou como se, a exemplo de Moisés, apartando as águas do Mar Vermelho, tivesse o caminho livre para avançar a salvo.
Mas não é só o tráfego que parece ter se interrompido.
É a própria atividade do Bairro.
O próprio Tempo.
De tal modo que deste momento só ficará este breve registro sem data.
Como única referência da hora do dia apenas a luz da tarde que cai projetando grandes sombras.
O ciclista, pincelando de azul este cenário, parece ainda definir seu rumo. Mas por um instante, mantendo-se no anonimato, torna-se o centro do universo, eterniza-se e, atemporal, se faz para sempre imortal.

sábado, 8 de agosto de 2009

Pedalando na Chuva



Acordo com uma vontade enorme de pedalar.
Motivado pela leitura, durante a noite, de aventuras arrojadas de ciclistas que se superam vencendo toda sorte de obstáculos, levanto com a determinação de engajar-me nesta espécie de cruzada de coragem, resistência física e destemor.
Deparo-me, no entanto, já no primeiro momento, com a constatação até aquele momento imprevista de que está chovendo.
Mas, então, digo para mim mesmo, aí está o desafio! Já ouvi a defesa de se pedalar no frio, já comentei até a respeito de pedalar sobre as águas, leio constantemente relatos de pedaladas em desertos, montanhas, sob condições as mais duras, pedalar na chuva sendo assim, é como um passeio.
Reanimado por este pensamento, tomo minha capa emborrachada, de capuz, coloco um calçado impermeável e pronto!, sinto-me apto para curtir uma pedalada sob a chuva.
Pego minha bicicletada e chego ao portão de casa assoviando "Cantando na Chuva".
Na rua, talvez por ser sábado e o dia nublado e chuvoso, pouco movimento.
Poucos carros, apenas alguns transeuntes esparsos passando sob os guarda-chuvas.
Embora a chuva não seja forte, a umidade é muito grande, típica de nossa cidade e, como sempre, desagradável.
Bem, mas só me resta subir na bicicleta e sair pedalando.
É neste momento que me dou conta de que não tenho exatamente um destino.
Moveu-me, até este instante, apenas a vontade de sair pedalando sem maiores considerações.
Agora, no entanto, a falta de um objetivo mais claro, paralisa-me.
Passo a notar também que minha pobre bicicleta não tem nenhum tipo de proteção. Vai ficar molhada e como não tem paralamas as rodas vão jogar água para cima.
Talvez fosse o caso de adotar algum tipo de sistema adequado.
Nada disto, contudo, procuro me convencer, pode me deter.
Nem mesmo o cheirinho de café sendo passado que vem de dentro de casa ou a lembrança de que a lareira ficou acesa.
Por outro lado não consigo me mexer como se estivesse paralisado.
Começo a negociar comigo mesmo um trajetinho bem curto, uma volta na quadra por exemplo. Só para sentir o gostinho de pedalar na chuva.
E é isto que estou pronto a fazer quando levado por um impulso tão súbito quanto o que me fizera tomar a decisão de sair, desisto da idéia e retorno para dentro de casa.
É claro que não estou muito confortável, um sentimento de culpa a percorrer meus pensamentos.
Mas dura pouco.
Ao chegar à cozinha ouço dizer:
- Onde andavas? O café está pronto, vai esfriar... e me agarro, neste momento, à convicção de que agi da forma certa.
Café frio, é preciso convir, não é nada delicioso...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Pedalando Sobre as Águas

Homens de pouca fé que não acreditais em milagres!
Vede e crede!
Ciclistas desanimados, descrentes que os administradores das cidades lembrem-se de vós e vos dêem condições de pedalar pelas ruas em segurança!
Se um ciclista pode pedalar sobre as águas, como nossos olhos ainda incrédulos podem ver, ciclovias podem ser feitas, ciclofaixas, bicicletários, enfim tudo que a pouca fé desacreditava.
Tende apenas que ter crença, muita crença e, sobretudo, rezar muito, orar muito diante das imagens destes senhores, políticos na maior parte. Em troca como oferenda nem pedem tanto, talvez apenas vossas espontâneas intenções de voto.
Sabemos que promessas, doutras vezes, já foram feitas.
Mas, agora, um milagre pode tornar tudo diferente.
E, iluminados por uma luz divina, talvez finalmente um pouco de entendimento os alcance e convertidos ao nosso evangelho nos acompanhem a divulgá-lo aos quatro cantos, pedalando pelas ruas do mundo. Amém. ( foto Mat Fot)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Pedalando no Frio

As notícias são alarmantes. A gripe A (a mesma "suína" ou "porcina" para os castelhanos) entra no Rio Grande do Sul de mãos dadas com uma frente fria que afirmam ser a mais rigorosa depois de muitos anos.
Temperaturas próximas de zero ou mesmo negativas.
Sensação térmica? Não dá nem para sentir quando as extremidades ficam como pedra e tudo que se busca é um canto onde se aquecer.
Cheguei a pensar: " que dia desafiador para pedalar... " mas, me encontrando na frente da lareira, esta idéia não progrediu muito.
Lembrei-me, então, de buscar minha bicicleta para compartilhar do calor do fogo.
Afinal, ela devia estar também sentindo muito frio.
Trouxe-a, portanto, e a deixei, apoiada no descanso, ao meu lado em frente à lareira.
Ficamos ali um bom tempo, pensando no verão distante mas, também, nos ciclistas e bicicletas anônimos que tenham de enfrentar a noite gélida para chegar aos seus destinos.
E enquanto permanecíamos próximos do fogo, a comunhão que sinto com minha bicicleta alcançou um grau ainda mais elevado ao ponto de que, em deteminados momentos, tinha uma espécie de sensação de que ela acompanhava meus pensamentos e, à sua maneira, sem deixar de ser máquina, tornava-se quase uma peça dotada de sensibilidade e de espírito.
Ou será esta impressão tão somente resultado das visões que, ao estar ao lado do fogo na noite mais fria da década, perpassam em frente aos nossos olhos hipnotizados pelas chamas?
Vou ficar nesta dúvida...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Seguidores Apóstolos

Quando surgiram os primeiros seguidores de Ciclistas Anônimos confesso que me surpreendi.
Seriam como uma espécie de apóstolos?
Entre eles já estava o Poti Campos que se converteu ao ciclismo como Paulo de Tarso ao cristianismo. Poti relata, em alguma parte de seus escritos, como isto ocorreu, ou seja, como foi a sua estrada de Damasco.
Neste meio tempo foram surgindo outros seguidores até chegar aos atuais onze:Horacio,Victor Teramoto, Rejane, Poti Campos, Fernanda Tomiello, Maria Sandra, Luis Patricio, Indira, Gilda Viegas, Elen e Eduardo Kohlrausch.
Falta um para serem doze e completar o número de apóstolos.
Nossa missão?
Sair pregando o evangelho do pedal, ir espalhando a boa nova de que existe salvação para o mundo, para a poluição, para a desgraça que se abate sobre nossos corações em meio ao congestionamento do tráfego nas grandes e médias cidades.
Deixo o Horacio ir na frente, como o mais arrojado, sinalizando com a mão cada vez que vai dobrar para a direita ou para a esquerda pedalando na frente de um pelotão de automóveis. Aliás, presenciando isto, já tive a forte impressão de que os carros todos iriam seguí-lo como se estivessem sendo pastoreados.
O Poti pode escrever um dos Evangelhos.
Eu, como não quero ser Cristo nem crucificado, creio que fico com a missão de escrever um outro Evangelho.
Resta saber o que fariam a Fernanda e os outros que nos seguem. Uma primeira missão, aliás, é converter o Guto, o Gian e o Sandro que não estão entre nós. O Marcus Cunha também.
Por fim, precisamos de um milagre.
Talvez alguém, com estes dotes, possa sair andando de bicicleta sobre as águas...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Bicicleta Na Minha Esquina

Ao sair de casa deparo-me, na esquina, com esta bicicleta.
Verifico que está cuidada, com indícios, até pelo modelo, de poder tratar-se de uma bicicleta feminina , mas está sózinha, presa por um cabo com cadeado, ao suporte da placa de sinalização.
Seu dono ou dona, tudo indica, afastou-se para fazer alguma coisa, talvez até comprar algum medicamento na farmácia em frente.
A bicicleta, enquanto isto, companheira, aguarda quieta, sossegada, até seu retorno.
Ocorre-me que os cães e as bicicletas, talvez se possa dizer, sejam os melhores amigos do homem.
Não exigem muito, o que significa que podemos mantê-los com pouco. Têm a capacidade, quando não lhes damos muita atenção, de ficarem em um canto, sempre prontos, no entanto, a nos atender quando lembramos que estão por perto.
Mas voltando à bicicleta, simpatizei tanto com ela que pensei até em esperar pelo dono.
Queria cumprimentá-lo, dizer-lhe: " que bela bicicleta você tem, tão obediente!..."
Mas eu estava com pressa.
Disse tchau para a bicicleta e segui adiante.
Já mais distante olhei para trás e percebi que alguém se aproximava da bicicleta.
Seria um ladrão?!
Enquanto fiquei por um instante acompanhando a cena, a pessoa começou a livrar a bicicleta da placa.
Procurei então me aproximar para acompanhar melhor e só então, já mais perto, pude perceber que se tratava de uma mulher com os cabelos presos e boné.
Ainda tentei chegar mais perto ,com a intenção de tentar dizer-lhe alguma coisa, mas a oportunidade já passara.
Com a bicicleta já solta pôs-se de pronto em movimento com firmes pedaladas.
E como veio em minha direção constatei que era não só uma mulher, como percebera à distância, mas, além disto, muito atraente.
Quase salto à sua frente para dizer: "eu também sou um ciclista" mas já era tarde.
Passou por mim sem me perceber e foi logo se afastando perdendo-se de vista.
Meio desapontado prometi a mim mesmo, da próxima vez, olhar melhor pela volta quando encontrar uma bicicleta solitária aguardando que a venham buscar.
Tampouco posso me impedir, desde então, de espiar na esquina para ver se a bicicleta não voltou a aparecer...

terça-feira, 28 de abril de 2009

"O Ciclista" de Fernando Weno

Em meio às minhas incursões ciclísticas, encontro Fernando Weno que, entre vários desenhos, detém-se por um momento a representar um ciclista.
Com poucos linhas o artista reproduz com traços sutis a atmosfera a um mesmo tempo poética e evocativa da riqueza do mundo do ciclismo.
Decido denominar seu trabalho, reproduzido ao lado, "O Ciclista".
Poderia intitular também "Ciclista Segurando a Bicicleta" ou " A Pausa do Ciclista". Enfim, já que o artista não deu um título, começo a buscar algum tirado de minhas conclusões.
Atrai-me também a postura aparentemente descontraída do ciclista.Parece aguardar alguma coisa ou então, simplesmente, estar fazendo uma pausa em sua pedalada.
Algo que, por outro lado, só pode ser consequência de minha imaginação, é a impressão que tenho do desenho estar associado a uma cena antiga.
O capacete, diferentemente dos atuais, coloridos, futuristas, parece uma espécie de pequeno elmo ou, melhor, um gorro ornado por uma pena que se inclina para trás!
A bermuda, em minha imaginação repito, lembra-me um culote.
Liberdades que, afinal, a arte nos permite e que a bicicleta, companheira de nossas divagações, nos induz.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sarkozy, "O Ciclista"


Temos o costume de nos admirar quando vemos alguma "personalidade" (leia-se: pessoa que aparece muito nas notícias) pedalando numa bicicleta. Sentimo-nos como se a bicicleta, naquele momento, estivesse sendo valorizada. Mas podemos estar incorrendo, ao pensarmos assim, numa grande ingenuidade.

Via de regra estas "personalidades", políticos sobretudo, só sobem numa bicicleta para "aparecer na foto" e não é difícil ver, em muitos casos, a enorme falta de familiaridade com o veículo.Confesso que tais cenas me deprimem e me sinto até desencorajado de pedalar por algum tempo. Imaginem Paulo Maluf se vangloriando de ser ciclista! Seria a desonra do ciclismo.

Mas temos que estar preparados para tudo. À medida que se aproximar a eleição do próximo ano e com a inclusão do ciclismo na pauta do debate das cidades, apostaria que vão surgir vários ciclistas de última hora. Não se surprendam se Dilma Rosseti aparecer, depois da cara nova, pedalando na inauguração de uma ciclovia do PAC. Ou se José Serra, muito desajeitado, inventar de se equilibrar encima de uma magrela. Aqui em Pelotas, não faz muito tempo, tivemos o caso de um prefeito que percorreu um trecho da avenida do Laranjal, pendurado encima de uma bicicleta a qual, coitada, deve ter vivido momentos de intranquilidade com a perspectiva de um tombo.

Mas, como disse, os exemplos já surgem com frequência e prometem se multiplicar. Um bem recente refere-se ao que foi noticiado como a visita de Sarkozy à sua mulher Carla Bruni. A foto registra este momento.Que romântico! Só falta o político francês estar empunhando um ramilhete de flores.

Mas pela indumentária bem se vê que se produziu muito bem para a ocasião. Fica até a dúvida se não se trata de um comercial de vestuário pois a foto parece ter saído diretamente de uma revista de moda.
Toda esta propaganda "ciclística" não impede no entanto do francês ser captado sob olhares críticos. A "charge" que reproduzo, satirizando Sarkozy, aponta para os tombos aos quais se está sujeito ao pensar que pode fazer da bicicleta, como temos visto alguns políticos se inclinarem, um mero instrumento de sua demagogia.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Um gaúcho ciclista

Estou de novo de volta a Tapes e, de novo, em razão dos barcos.
Mas minha atenção não se desvia muito das bicicletas.
Novamente me extasio com o emprego absolutamente tranquilo que os habitantes fazem da bicicleta.
Não me detive neste detalhe mas tenho a impressão de que nem mesmo colocam cadeado quando deixam as bicicletas nos estacionamentos existentes por toda parte.
E como não posso deixar de exercitar meu cicloativismo, chama minha atenção a tentativa que um homem, com ares de gaúcho, um gaúcho de bermuda, faz para colocar sua bicicleta dentro de um ônibus.
Fica bem evidente que a bicicleta é essencial para sua vida, para lhe dar condições de se transportar, seja aqui onde se encontra, seja no lugar para onde pretende ir levando-a como a uma companheira.
Aproximo-me e verifico que, pelo menos da maneira como esta tentativa está sendo feita, há alguma dificuldade em ter êxito.
O gaúcho ciclista insiste que já transportou a bicicleta antes, de que é possível.
O encarregado do ônibus mostra-se cético e dá a impressão de que vai decretar a impossibilidade.
É quando, por alguma razão, pareceu-me até que para conversar com alguém, talvez seu superior, o encarregado se afasta.
Pressinto que vai voltar com uma decisão negativa, desta vez respaldado pela autoridade de um chefe, apenas para parecer que não está agindo arbritariamente.
Decido, então, intervir.
Aproximo-me e junto com o ciclista , com seu jeito agaúchado, vamos tentando daqui, tentanto dali, até que a bicicleta consegue ser acomodada!
O "gaúcho" me agradece e se encaminha para subir contente no ônibus.
Fico até um pouco emocionado e me sinto como se tivesse cumprido minha missão.
Afinal ciclista é para ser unido e tinha acabado de ajudar um ciclista anônimo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

"Como é linda a liberdade"

O leitor de Ciclistas Anônimos, Zeca Baronio, escreve esta pequena crônica que nos parece dentro do espírito do espaço. Transcrevo:
Deu vontade de postar essa imagem.
Eu ando meio ciclo-chato. Ando tendo muitas ciclo-idéias. Quem me conhece sabe que quando conheço uma causa e acredito nela, vou com ela até o fim. Será que a bicicleta está me dominando de tal forma?
Tô só esperando meu ciclo-transporte voltar da revisão geral para, a partir da próxima segunda, pedalar 40 Km diários até o trabalho e volta. Um bom exercício… que tal? Chega de busum! Chega de suvaco fedido, roleta e sonolência.
Meu único medo é o horário de pico, na qual terei que disputar espaço com ônibus e carros, alguns deles apressados demais.
Riscos fazem parte da vida, aliás, o que seria da vida se não fosse a emoção dos riscos diários? Tem gente que tem carro, tem gente que tem moto, eu escolhi a bicicleta.
Meus velhos amigos provavelmente devem estar achando que o Zeca mudou, que virou um esportista.
“Aqui com arroz”! Não estou deixando de ser um amante da música e nem da boemia.
Apenas redescobri o quão bom é estar sobre duas rodas, coisa que eu fazia muito quando era piá.
Quem acompanhou este blog, sabe que sempre fui “verde”, e que maneira melhor de dar o exemplo se não sobre a magrela?
Resolvi simplificar um pouco a minha vida.
Resolvi ir de bicicleta.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Bicicleta e Fotografia

Este é o tipo de foto (Fernanda Tomiello) que me faz pensar, não sei se primeiro na Fotografia e depois na Bicicleta, ou se o contrário, ou se nas duas coisas ao mesmo tempo.
Da fotografia poderia dizer, por exemplo, que capta com o oportunismo que deve ser uma virtude do fotógrafo, um momento de especial expressão.
A cor vermelha do quadro, acrescenta um elemento que enriquece, pelo detalhe, o conjunto da foto.
Da bicicleta me ocorre comentar que se mostra naquilo que é a sua essência, a de ser um instrumento de trabalho do homem, uma espécie de ferramenta especial, obtida pela aplicação da tecnologia, e levada, no momento da foto, consigo, pela mão, como uma filha, uma companheira. Esta parceria, esta união, estão muito bem acentuadas quando o ciclista desce da bicicleta para poderem seguir avançando ladeira acima.
A bicicleta apresenta-se deste modo como bem mais que um objeto de consumo, às vezes até mesmo de luxo, ou um artigo que deva satisfazer à vaidade ou traduzir um status social.
Investida de uma dignidade que supera estas manifestações subalternas, sua presença representa, isto sim, algo que está incorporado à nossa cultura em vários níveis de intervenção, desde o transporte, quando se incorpora ao trabalho, passando pelo lazer, até chegar no domínio das artes e dos sentimentos.
Bicicleta e Fotografia caminham assim, pela mão do homem, para nos conceder um espaço de liberdade e conscientização.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Bicicletas do Interior

Enquanto nas cidades "grandes" ( Porto Alegre, Rio, São Paulo, etc.) os ciclistas lutam desesperadamente para garantir um espaço de circulação, em cidades pequenas, do "interior", este espaço parece ainda garantido. São Lourenço do Sul, a respeito da qual ainda me deterei melhor, mostra-se como um exemplo bem significativo desta situação.
Mas outros exemplos, por certo, poderiam ser apresentados.
Retornando de uma navegada , passo por Tapes e registro algumas cenas onde isto se evidencia.
Carros, pedestres e ciclistas, assim como outros eventuais usuários das vias, parecem conviver em harmonia. As bicicletas, inclusive, passam a fazer parte da paisagem urbana, tranquilamente estacionadas nas calçadas.
A foto ilustra uma destas cenas. Diante do prédio dos Correios, duas bicicletas disfrutam de toda a tranquilidade que o ambiente proporciona. Tranquilidade, claro, que deve ser sentida também por seus proprietários.
Estas cidades constituem-se assim em oásis ou paraísos onde refugiarem-se os ciclistas do estresse e da quase caçada vivenciada nos grandes centros.
Quem sabe investimos em reunirmos amantes do ciclismo em cidades como estas para passarem suas férias pedalando?

sábado, 27 de dezembro de 2008

Ciclo-reflexão

Grande parte das discussões e da mobilização em torno do ciclismo mostra-se vinculada às suas dimensões esportiva, de lazer ou urbana. Por isto quando não se está discutindo competições , o assunto são passeios, cicloturismo ou ciclovias com boas condições de utilização.
Pergunto-me, no entanto, se o universo do ciclismo se encerra dentro deste referencial na realidade até um pouco fechado em torno de valores que podem ser bastante individualistas.
Pergunto-me sem ter, na realidade, uma resposta para apresentar.
Fico, contudo, imaginando o papel que as bicicletas podem ter em comunidades pobres nas quais, além de elas estarem em condições normalmente bem precárias, são poucas e precisam ser compartilhadas por várias pessoas.
Enquanto passamos a achar normal em alguns estamentos de nossa sociedade as famílias terem mais de um automóvel, imagino que haja outros, em outros contextos, nos quais uma bicicleta atende a uma família inteira. Qual o valor que tem exatamente para estas pessoas a bicicleta?
Não sei responder, como posso ter resposta para algo que não estamos acostumados a viver, não estamos acostumados nem a pensar?
Mas, pelo menos isto, queria que pudéssemos alcançar, que os ciclistas se tornassem cidadãos-ciclistas e fizessem comigo esta ciclo-reflexão.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Don Quixote e os ciclistas

Na postagem anterior escrevo que "o ciclista surge neste ambiente inóspito como um tipo de figura quixotesca a duelar a cada esquina, a cada quadra com máquinas metálicas, velozes e mortíferas."
Tomando esta linha de pensamento quer me parecer que ela é mais procedente do que tinha pensado.
Don Quixote, acompanhado do fiel escudeiro Sancho Panza, tem um ideal e um objetivo mas se defronta, na busca de concretizá-los, com obstáculos difíceis de superar.
Quando enfrenta, pensando se tratarem de cavaleiros inimigos, os moinhos de vento, defronta-se, na realidade, com forças que superam sua pequena capacidade de luta.
Os ciclistas que entram dentro do trânsito e disputam seu espaço com veículos pesados, são como Don Quixote enfrentando os moinhos.
O resultado é bem conhecido. Os ferimentos, as fraturas ou até mesmo, o que não é incomum, a morte.
Trata-se de um confronto desigual e mortal.
Nem sempre o capacete, os equipamentos de segurança, o respeito a regras de trânsito, são garantia integral de sobrevivência. Muitas vezes estas proteções se pulverizam diante da brutalidade que é ser atropelado por veículos que podem ser centenas de vezes mais pesados.
Este é o momento em que, efetivamente, estamos na contramão pois a vida é uma via de mão única. Para superar esta condição de inferioridade só dispomos da nossa organização e da nossa união. Quando entramos na discussão das condições oferecidas para o ciclismo urbano, percebemos que temos dificuldade em manter o foco naquilo que é mais essencial e nas questões primordialmente mais estratégicas.
Como Don Quixote acreditamos que ações algumas das quais em parte ingênuas e isoladas possam modificar um quadro profundamente instalado em nossa sociedade e dentro do qual o automóvel é o soberano intocável. Temos que ir à busca de aliados, um dos quais temos de ter a clareza de nos dar conta, é o transporte coletivo. Poucas vezes vejo colocada esta associação mas ela é central num contexto em que o grande desafio é impedir que os carros particulares ocupem as ruas de forma cada vez mais avassaladora.
Para concluir estas observações, reitero que é o momento de caminharmos das formas quixotescas de tentar abalar o poder do qual os ciclistas estão excluídos, para outras mais estruturadas e, em especial, baseadas em estratégias mais coerentes com os embates que se colocam pela frente.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Ciclistas de Buenos Aires


Surpreende em Buenos Aires, com o tráfego intenso que se observa em sua zona central, o grande número de ciclistas que circulam( na foto um deles ziguezagueando para escapulir dos carros). Ou, melhor dizendo, malabaristas, equilibrando-se sobre duas rodas enquanto executam movimentos sinuosos cercados de riscos e perigos por todos os lados.
Realmente espanta.
Desconheço dados sobre acidentes mas fica a impressão que não devam ser poucos.
Por outro lado resta por explicar, tendo em vista este número tão expressivo de ciclistas e o conceito que Buenos Aires procura sustentar de metrópole cultural, como não existam vias próprias para a circulação de bicicletas.
As condições seriam bem favoráveis para isto. As avenidas são bem largas e a topografia é plana.
Mas o império do automóvel, a exemplo de tantas cidades, é poderoso.
O ciclista surge neste ambiente inóspito como um tipo de figura quixotesca a duelar a cada esquina, a cada quadra com máquinas metálicas, velozes e mortíferas.
Indiferentes, contudo, a estes perigos, os ciclistas passam rápidos, ágeis, esquivando-se aqui e ali, descobrindo espaços para passar onde o bloqueio e a muralha de carros parece indevassável.
Como os admiro, ciclistas anônimos, em sua inconsequência, em seu destemor que cria um elemento tão forte de oposição, de contradição e, ao mesmo tempo, de esperança à ditadura implacável do automóvel !
A respeito deles é importante sublinhar que a grande maioria está envolvido com seu trabalho. Muitos vêm de pontos distantes, dos arrabaldes, trazendo suas bicicletas de trem até a estação mais próxima da zona central de Buenos Aires onde se misturam a muitos outros, executando atividades diversas (a de estafeta é bem típica e parece congregar os ciclistas mais temerários) de trabalho ou de estudo.
E parecem ter sempre um motivo muito forte para se arriscarem tanto seja êle econômico ou de tempo.
Resta-nos aguardar que algum dia Buenos Aires seja mais amena para propiciar a nós pobres mortais, ciclistas de carne e osso, alguns meros turistas como eu, podermos percorrer de bicicleta suas lindas ruas e avenidas.
Aí sim, Buenos Aires estaria mais próxima da Paris da qual se gaba ser uma espécie de irmã.

sábado, 5 de julho de 2008

Tabela de Estacionamento

Dizem que no mundo capitalista tudo tem seu valor ou que tudo tem seu preço. Qualquer coisa, independentemente do que seja. Em se tratando do que representa a bicicleta esta tabela, afixada num estacionamento no centro, talvez dê uma pequena idéia do que representa em relação a outros veículos. Poder-se-ia até especular que está bem valorizada tendo em conta que o seu estacionamento por hora representa pouco menos que 50% do valor estipulado para um veículo pequeno. Seria ótimo se a bicicleta tivesse a mesma atenção das administrações que tem estes veículos em algo perto desta proporção. Mas certamente não tem. Ou seja a bicicleta é duplamente discriminada primeiro quando é esquecida no planejamento urbano ou então, o, , ao ser lembrada, é tratada como se fôsse algo raro, quase um objeto de luxo tendo que pagar o correspondente por esta cotação .
É com esta lógica que temos que lidar e que nos cabe, sem perder a poesia combater. A poesia, só para explicitar, deve ser entendida como a qualidade que, sem deixar de lado a luta e o ativismo, enriquece-os com o que agrega de elementos culturais, criativos e humanos.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

World Naked Bike Ride

O World Naked Bike Ride chegou ao Brasil, em São Paulo.
Num primeiro momento, muito pudico, mas bem divertido com ampla divulgação de roupas íntimas, cuecas, calcinhas e sutiãs.
Quando um mais atrevido, resta saber se adepto do ciclismo ou do nudismo, propôs-se a levar o espírito do protesto ao pé da letra, foi de imediato detido por policiais e a manifestação, segundo foi noticiado, teria acabado por aí em protestos pelas detenções.
Mas, além da diversão, o evento valeu por ter alcançado a mídia nacional e também posto a nú, isto sim, as limitações do poder público, evidenciado na negativa de autorização e na ação policial, grotesca, em lidar com este tipo de ato e , por conseqüência, com a própria questão do emprego da bicicleta nos centros urbanos.
Aqui pelo Rio Grande do Sul talvez qualquer dia algum grupo se anime a promover algo semelhante.
Terá apenas que escolher muito bem a época do ano.
Agora, por exemplo, duvido que tivesse algum sucesso.
Só de esperar que me tirassem esta foto, com o mínimo de roupa que podia em apoio aos ciclistas de São Paulo, fiquei tremendo de frio...

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Proibido para Ciclistas

Fórum Mundial da Educação em Santa Maria-RS.
Um espaço para todas as idéias, todas as teorias e formulações.
Um espaço de discussão, de pensar no futuro, de abrir os horizontes.
Só esqueceram de tirar a placa, só esqueceram de convidar os ciclistas, precursores
e arautos deste novo amanhecer

sábado, 24 de maio de 2008

Paisagens de Outono

Ainda não sei o que vou escrever sobre esta foto.
Aliás, será uma foto mesmo ou alguma coisa que imaginei?
O que será real nesta cena?
Onde termina a pintura, onde estão os limites da tela?
Como não sei o que responder, aguardo para escrever quando puder me situar melhor diante destas questões.
Enquanto isto deixo-me levar pela impressão de que estou sonhando, de que pedalando deixei-me adormecer e acordei num mundo em que somos mais livres, mais puros, deixando-nos fundir com as paisagens do outono

terça-feira, 13 de maio de 2008

Adeus ao sossêgo

Levanto de manhã com o compromisso de, na primeira hora, ir à dentista. Falta pouco menos que quinze minutos quando estou pronto para sair.Penso em pegar uma carona de carro mas teria que voltar a pé.
Penso até em chamar um táxi mas, na volta, se não quissesse ficar jogando dinheiro fora, teria que voltar a pé também.
E de bicicleta, daria tempo?
O trajeto não é longo e, num instante coloco meu prendedor na barra do abrigo e estou na rua, pedalando.
Tomo a Rua Santa Cruz, uma rua relativamente calma, com pouco trânsito de automóveis.
A maior razão parece ser o calçamento de pedras, em alguns trechos irregular.
Não saberia apontar outra.
Mas esta rejeição dos automobilistas é que a torna tão interessante.
Em pleno centro da cidade, parece que saímos um pouco fora dele e, embora o pavimento nos trechos de pedra irregular torne pedalar em parte desconfortável, eu diria que isto é perfeitamente compensado pela tranquilidade que se ganha.
Tranquilidade, contudo, que parece não irá durar.
Com os recursos obtidos para asfaltamento da cidade revestem-se rapidamente várias ruas de betume preto.
E ao que se anuncia brevemente a Santa Cruz.
Que coisa insana!
Cobrir a beleza e a nobreza da pavimentação de pedra, muitas vezes de paralepípedos perfeitamente regulares que foram colocados um a um , e estão ali há muitas décadas,pelo asfalto que traz consigo o fluxo de automóveis, velocidades altas e o desperdício econômico da permanente manutenção.



Neste ponto os ciclistas, sempre prontos a reivindicar também pistas asfaltadas,poderiam fazer um reflexão pois mais daninho que o pavimento irregular é o automóvel que vem atrás do asfalto.
Bem são estas reflexões que vou fazendo enquanto me encaminho para a dentista.
Na volta tomo a ciclofaixa da Andrade Neves. Melhorou, sem dúvida, as condições de trafegabilidade para os ciclistas mas espanta que uma estreita faixa ( muito estreita na realidade) de pouco mais de um metro delimitada por uma linha pintada que já começa a perder a tinta, tenha levado cerca de um ano e meio para ser executada.
E,por enquanto, isto e a ciclofaixa do Laranjal, parece ser tudo que em décadas foi permitido às bicicletas obter.
Retomo a Santa Cruz e aproveitando dois leves ( levíssimos) declives que tem neste sentido, deixo-me levar pela força da gravidade.
Neste momento estou na contramão mas tenho consciência de que quem está realmente na contramão não somos nós os ciclistas mas os responsáveis por esta política desprovida de visão.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Prendedor de Calça

Em meio às discussões que tratam da incorporação de tecnologias de ponta ao ciclismo ( sistemas de computação, materiais como titânio, carbono e os mais diversos recursos modernos), confesso que me sinto um pouco intimidado de falar em um simples e singelo prendedor de calça.
Mas um dia desses, decidindo pedalar com um abrigo com a boca da perna um pouco larga e não tendo protetor da coroa central, senti a necessidade do acessório.
Um recurso simples e bastante, digamos, "caseiro" é empregar um prendedor de roupa, destes usados em varais, para prender a calça. E acho que foi o que empreguei.
Como eu disse, em meio a tantas discussões sobre recursos avançados à disposição do ciclista, a solução pode parecer até grosseira. Mas, na verdade, não o é, funciona muito bem e tem um significado para a cultura ciclística muito grande.
Animado pela redescoberta lembrei-me da existência de um outro tipo de prendedor com o qual, por razões que levaria um tempo para explicar, não simpatizava, e que consiste de uma mola em curva que se fecha sobre o tornozelo.
Por ser um acessório meio antigo e nunca mais tê-lo visto, imaginei que não o encontraria mais.
No entanto, um pouco surpreso e ao mesmo tempo deliciado, encontrei-o em uma oficina de bicicletas. O proprietário inclusive me informou que eles podem ser obtidos nas cores do time de futebol da predileção. Ia pedir vermelho e preto, cores de meu time o xavante pelotense, mas não tinha.
Aliás, embora subsistam, entendi que estes prendedores não são muito usados sendo até meio raros.
Uma pena porque são muito úteis e , a exemplo dos paralamas, seu desuso parece-me resultado muito mais de nossa débil cultura ciclística do que consequência de uma pseudo evolução tecnológica.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Bicicletas Abandonadas


Lendo notícias sobre ciclismo, inteiro-me que, após a criação de um programa, em dezembro de 2007, favorecendo o transporte de bicicletas no Trensurb (sistema de trem urbano de Porto Alegre), duas delas foram esquecidas por seus usuários dentro do trem.
Segundo a notícia elas estão à disposição dos seus donos, desde que comprovem ser os proprietários, na Central de Achados, na Estação Farrapos. Caso ninguém procure as bicicletas no prazo de seis meses, elas serão entregues ao Setor de Relações Comunitárias para serem doadas a entidades beneficentes cadastradas na empresa.
Fico pensando, como pode alguém, um ciclista!, esquecer sua bicicleta?
Se alguém entra de bicicleta dentro do trem certamente tem a intenção de seguir sua viagem pedalando. Como poderia não se dar conta de sua falta? Ou não se dá, o mais provável, a tempo de recuperá-la? E depois, como provar que a bicicleta é sua? É freqüente os proprietários de bicicleta não disporem de documentos de seus veículos.
Ou teriam sido abandonadas voluntariamente?
Talvez os donos, cansados de suas bicicletas, tenham decidido deixá-las em um lugar no qual teriam um destino.
Pobres bicicletas abandonadas!
Á espera que definam sua sorte, doadas possivelmente, como diz a notícia, para entidades beneficentes.
Se tivessem sentimentos (e não os tem?) que dor não estariam sentindo, jogadas em um depósito, lembrando os bons momentos vividos em dias de melhor sorte.
Talvez fosse a ocasião de pensar em criar alguma organização para amparar estas bicicletas, jogadas ao abandono por parte de donos irresponsáveis, e dar-lhes um destino digno através da adoção ou outra forma de aproveitamento.
Se morasse em Porto Alegre, iria visitá-las e dar-lhes conforto e cuidados.
Como não moro, talvez ciclistas que estejam próximos, possam ter este gesto de humanidade para com máquinas tão sensíveis e, neste caso, tão desamparadas, esquecidas na Central de Achados.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Subindo a Ladeira

Sempre atento às manifestações que envolvem o ciclismo, chamou-me bastante a atenção um fato que, de tão simples, teria passado despercebido a muitos.
Bem próximo daqui, pela rua Dom Pedro II, existe uma das poucas ladeiras de Pelotas.
Como é de certo modo conhecido, a cidade é muito plana e, por isto mesmo, apontada como ideal para o emprego da bicicleta.
Mas a sua zona mais central, onde estão localizados os prédios mais importantes, entre eles a Prefeitura, a Biblioteca, os dois teatros, Sete de Abril e Guarany, o Grande Hotel, o Mercado Público, os casarões mais imponentes, etc., etc., ocupam uma zona levemente mais alta, que depois vai se prolongar pela maior parte da cidade, poucos metros acima da zona mais baixa que antigamente seriam zonas de várzea.
Pois bem, estas considerações são apenas para situar a cena que presenciei.
Tendo saído à noite para percorrer as adjacências deparo-me, ao chegar ao alto da ladeira a que me refiro, com um ciclista, negro, um pouco gordo, tentando com um certo esforço, superá-la sem sair do selim.
Acompanho sua tentativa acreditando que terá que levantar do selim para ajudar, com todo o impulso proporcionado pelo corpo, vencer a gravidade.
Mas ele resiste e, de uma forma que me surpreende, alcança o alto da ladeira sem se erguer, sentado como se estivesse sentado numa cadeira.
Tenho um impulso de interceptá-lo para cumprimentá-lo mas me detenho.
Ele é muito rápido e, mal supera o obstáculo, já segue adiante.
Mas dois aspectos me chamam muito a atenção.
Ao primeiro já me referi. O nosso herói é gordo, bem longe de qualquer modelo de atleta.
Segundo, sua bicicleta é extremamente precária e , enquanto subia, a correia ia escapando das pinhas como que se negando a participar daquele esforço.
Aliás, num dado momento, quando já chegava ao topo da ladeira e demonstrava disposição física para não parar, foi uma insuficiência mecânica que mais comecei a temer.
Enfim, no entanto, homem e máquina superam as dificuldades e, juntos, seguem triunfantes.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Calibrando os pneus

O leve sussurrar dos pneus contra a pavimentação me faz suspeitar que estão com pouca pressão.Mas ando sem bomba, terei que esperar até chegar a meu destino, uma oficina mecânica, para verificar isto.
Aliás, devo confessar que vou lá para tratar de meu veículo motorizado.
Afinal, ninguém é perfeito.
Neste momento,porém, o mais importante é avançar contra um vento leve que me exige pedalar com um pouco mais de energia.
Aproveito para ir fazendo algumas reflexões sobre minha bicicleta.
O selim é meio duro, os punhos do guidão igualmente, dou-me conta que a pretender pedalar mais, preciso ter mais conforto e, igualmente, mais eficiência.
Afinal, nada contra a tecnologia que tem sido aproveitada de forma tão decidida pela indústria de bicicletas.
O pensamento que talvez fôsse necessário ter presente, no entanto, é que estas melhorias, além de via de regra implicarem em custos bastante altos, não substituem e, talvez apenas complementem, as melhorias e os avanços que fundamentalmente são necessários na infraestrutura viária para as bicicletas.
Como justificar, por exemplo, a necessidade de amortecedores e pneus largos para transitar dentro da área urbana?
A idéia que fica ao se ver a prioridade que acessórios deste tipo passam a ter no equipamento das bicicletas, é de que as bicicletas devem estar preparadas para provas de obstáculos em meio a trilhas as mais difíceis.
Novamente, assim,fica evidenciado o modo como em nossa cultura tendemos a tomar o acessório pelo essencial, a parte pelo todo, o boato pela verdade, a retórica pelo discurso e o exibicionismo pela atração.
Bem, chego ao meu destino e trato de dar umas poucas libras a mais nos pneus antes de voltar.
Só que, desta vez, já não posso mais ouvir o sussurrar dos pneus a marcar o ritmo de meu pedalar.
Acho que vou esvaziá-los de novo...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Confissões

Queria me inspirar mas confesso que encontro dificuldades. Queria que minha cidade e a sua cultura, os seus costumes, os seus valores, olhassem com mais carinho e mais cuidado para os ciclistas e entendessem melhor o que eles podem representar de positivo, de saudável e até mesmo de divertido e poético para todos nós seus moradores.
Vejo, no entanto, que há barreiras a este entendimento, a esta compreensão.
Por isto, quando pedalo, sinto-me muitas vezes meio solitário.
Embora centenas, milhares de outros ciclistas também pedalem pelas ruas, muitas vezes não sinto que nos una mais do que a necessidade premente de nos deslocarmos a um custo que seja o mais baixo possível.
Não me dá a impressão de que os ciclistas que encontro estejam felizes.
A grande massa dos que pedalam, pelo menos em minha cidade, estão indo ou voltando do emprego e, tanto no emprego que tem ou na casa para qual retornam, são muitas as dificuldades que encontram e parte destas preocupações, certamente, viajam com eles de carona.
Além disto sua atenção tem que estar permanentemente tão requisitada para não serem atropelados e não perderem a própria vida, que parece haver pouco tempo para usufruir da incrível sensação de liberdade de pedalar.
Não queria que este fôsse um registro triste até porque falar de ciclismo e de bicicletas sempre me anima muito, mas não posso evitar.
Nestes momentos, de qualquer forma, me consola e me dá ânimo saber que em minha cidade e em outras cidades pelo mundo todo, muitos ciclistas e muitos amantes de bicicletas, superam as adversidades e lançam-se às ruas sózinhos ou em pequenos ou grandes grupos, às vezes em eventos organizados ou em manifestações, impulsionando seus veículos mágicos como quem impulsiona a própria esperança

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Pensamentos de Final de Ano

Hoje, 30 de dezembro, antevéspera do final do ano, desço até à garagem e olho minha bicicleta que tem, ali, que conviver com os carros.
Olho e retorno para dentro de casa.
Vou até lá como se fôsse apenas para confirmar sua presença.Como para me certificar de que não fugiu.
Parece loucura mas passo a ter a sensação de que as bicicletas podem agir por conta própria. Passo a ter a sensação de que, como resultado de nosso descaso e de nosso desprezo, possam estar arquitetando algo sinistro. Silenciosamente como, segundo afirmam seus detratores, seria uma característica desta máquina que tem parte com o diabo.
Deixo passar um tempo e volto de novo a inspecionar. Talvez tenha, o que queria evitar, de prender minha bicicleta com uma corrente.
Terrível, realmente terrível e um tanto assustador.
Preocupa-me o fato de que todo ser sob grilhões desenvolve o potencial de um dia vir à desforra seja através de suas própriasmãos ou de seguidores, de descendentes ou de espíritos que fiquem vagando por aí