sábado, 19 de junho de 2010

"Bicicletería"

Estou de volta a Buenos Aires mas agora já não fisicamente.
Meu reencontro é a pedalar pelas ciclovias do terreno límitrofe da realidade.
Sucede que Buenos Aires definitivamente é um exercicio de memória.
E de imaginação.
Mas também de esquecimento, de vida e de morte.
Sua obsessão em reviver o passado e resistir ao desaparecimento é um permanente desafio ao presente.
Mergulha-se em Buenos Aires como num mundo abissal. Deste mergulho a dúvida não é apenas se dele se sai vivo, mas se estamos vivos ao nos lançarmos ao empreendimento.
Mas mesmo Buenos Aires, apegada a esta obsessão e disposição de ser intemporal, não pode impedir que a sua face sofra o desgaste do tempo ou da ação selvagem do homem e, aqui e ali, apresente transformações.
Saio, então, a caminhar pela cidade e, como um explorador, vou me deparando com estes eventos.
Uma destas incursões já a tinha planejado de antemão.
Cedo pela manhã dirijo-me à Bicicleteria. A imagem que tenho dela na foto acima de Alexander Jung, é surpreendente. Na realidade uma autêntica criação artística que lembra uma tela, uma pintura digna de manter-se ali, conservada, intacta, como numa galeria ao ar livre.
Mas o que encontro é já a sua fisionomia alterada, coberta por anúncios. Salva-se deste vandalismo comercial, da forma original, o nome estampado na parte superior.



Diante desta cena recosto-me à parede do prédio do lado oposto da rua e deixo-me ficar ali recuperando o fôlego, atônito pela descaracterização da fachada, para tirar as fotos acima. Ainda investigo um pouco em volta e fico sabendo, do encarregado de uma banca de revista próxima, que a Bicicleteria teria fechado recentemente, questão de poucos meses.
Sem nada mais a fazer afasto-me pelas ruas antigas de San Telmo, temeroso de perder-me em seus traçados sombrios e talvez, como nos terríveis dias da ditadura militar, de desaparecer para sempre sem deixar rastro.

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2 comentários:

  1. Impressionante a foto da Bicicleteria. Que achado. Fiquei um bom tempo abobado olhando. E sempre ostastes do Borges e suas portenas portas!
    Ou Cortazar.. certo.. tudo bem..
    A Invasão de São Paulo impressiona. Custei a perceber o ciclista no meio da manada deixando um rastro de pregos. Te lembra? Dois pregos
    retorcidos de maneira que ao chão sempre uma ponta apontasse pro
    destino de todo prego.
    Mas gostei mesmo da portena ao sol, só a bicicleta disfarça sua pose andaluz, preste a patear la tierra, casi matadora, casi piedra, é inimaginavel esteja prestes a enfrentar el puente giratorio.

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  2. Ciclistas Anônimos14 de julho de 2010 14:04

    ...escrevo para os ciclistas, assim penso, mas é sempre bom ter a atenção de escritores como tu ...

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Talvez não saiba mas pode ser que tenhamos, em outros momentos, pedalado juntos. Pedalado em todos os terrenos que a bicicleta propicia entre eles os da criação e participação. Se chegou até aqui é quase certo que sim.Escreva seu comentário. Ele é parte fundamental deste processo.