terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Câmara de Aladim



Dentro do novo cenário das artes em Pelotas ganha corpo a produção saída de alunos do curso de Artes da Universidade Federal .
São na maioria propostas que, procurando sair do âmbito dos trabalhos acadêmicos, têm a disposição de serem inovadoras.
O que deste laboratório irá perdurar dentro do difícil contexto de tornar-se artista é impossível prever.
Mas algumas propostas, sem dúvida, são criativas e merecem atenção.
É o caso dos trabalhos desenvolvidos através da oficina de fotografia Olhos de Lata  que empregam a técnica do pinhole.
Embora esta técnica seja bem conhecida e, periodicamente, volte a ser resgatada , os resultados obtidos pelo grupo são bem interessantes.
A técnica do pinhole, apenas para lembrar , consiste em empregar uma caixa ou uma lata na qual é feita um pequeno furo. Na parede oposta ao furo coloca-se
papel fotografíco. Diante de um objeto fixo e mantendo igualmente fixa a lata durante um tempo que pode ser grande, o papel será impressionado resultando uma imagem
positiva a qual basta revelar pois já se trata da própria cópia final.
As fotos acima, de autoria de Luísa Planella , Tâmires Rodrigues e Juliana Charnaud  ilustram o resultado do processo.Observando estas fotos e a densidade artística que incorporam não há como deixar de pensar que a câmara pinhole assume, nestes momentos, o papel de produzir imagens com o poder mágico não da lâmpada, mas de uma câmara de Aladim. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

sábado, 23 de junho de 2012

Bicicletas Acorrentadas


Rua XV, esquina com Sete de Setembro (Fotos: Coleção Rubens)

Entre as cenas do cotidiano que sempre me chamam a atenção uma bicicleta abandonada ou simplesmente estacionada em algum lugar é uma das preferidas e que mais, por conseqüência, tenho explorado. 
Ciclistas Anônimos , conjunto de crônicas sobre ciclistas e bicicletas, é, claramente, testemunho deste fascínio. 
O registro fotográfico tem, então, o papel de ser o elo desta atenção.  
No caso desta foto, por exemplo, de autoria de Rubens Amador Filho, editor de Os Amigos de Pelotas, sinto-me provocado por diferentes motivos os quais não são isolados mas, ao contrário, acabam se relacionando todos entre si.
Começo pelo mais difícil, pelo menos me parece, e ao qual, neste momento, vou me restringir..
Esqueço o tema mesmo sendo a bicicleta, central destas crônicas, e detenho-me na fotografia.
Comentar fotografia, tarefa à qual me dediquei durante dois anos mantendo uma coluna semanal no jornal Diário da Manha, intitulada Arte&Fotografia, apresenta alguns desafios. O primeiro é a necessidade de se ter um mínimo de conhecimentos teóricos, estéticos e históricos, que possibilitem inserir a obra dentro de um contexto razoavelmente coerente.
A fotografia, hoje uma forma de expressão que tem reservada dentro da Arte um espaço sempre instigante, move-se por caminhos próprios com  particularidades nem sempre devidamente identificadas pelos apreciadores ou mesmo os críticos de arte.  
Vou, portanto, me deter em apenas um ponto dentro deste contexto.
A fotografia na sua origem foi durante um bom tempo desqualificada como arte porque parecia, dentro da visão predominante até aquele momento, ser mais um produto da técnica, um resultado mecânico, do que da inspiração e da criatividade.
Parecia, assim, não ter outro futuro do que produzir registros visuais e documentais. Ou na melhor das hipóteses, como foi se tornando freqüente, ser uma técnica de apoio para a pintura e o desenho.
Com o advento de equipamentos cada vez mais acessíveis tanto à aquisição quanto ao manuseio e a crescente capacidade de produzir fotos em quantidade sempre maior, a fotografia poderia ter se extraviado pela banalidade e pela profusão.
Não é, no entanto, o que sucedeu. Verificou-se que dentro deste processo, por mais massificador que tenha se transformado, não deixaram de ser produzidas  peças que só se podia incluir , a partir de critérios que foram se constituindo , na galeria das obras de arte mais requintadas e consagradas..
Só a título de exemplificar o que quero dizer cito, como autores hoje clássicos que me são mais familiares, Ansel Adams, Edward Weston, André Kertész, Man-Ray, Bresson e, claro, o nosso Sebastião Salgado. ,         
Pois bem, voltando à foto, tenho constatado no autor uma familiaridade com a fotografia verificável pelo vivo interesse que demonstra, que lhe dá um background teórico, e pela forma como procura se valer deste interesse nas fotos que produz.
É nítido, em várias delas, o olhar fotográfico que se apresenta sempre que a foto, deixando de ser apenas um registro mecânico, torna-se também o registro de uma percepção e uma interpretação da cena que visualiza.
Neste momento a fotografia transcende o espaço que lhe destina o suporte, seja ele qual for, sai da “parede” ( talvez no momento de estar numa exposição) e  ganha a nossa consciência e a nossa imaginação.
Vejo isto na fotografia de Rubens. A foto da bicicleta é uma instância deste processo. E não me detenho apenas nesta fotografia isoladamente, mas no conjunto que nos tem dado a conhecer.
Integrando a série “Retratos do nosso centro favelizado e 'perigoso' “, inclui-se a cena acima, em frente do Café Aquário, onde encontram-se as palmeiras tropicais uma das quais  justamente serve para manter a bicicleta amarrada por uma corrente a caracterizar, na proposta, a insegurança, A circunstância, é importante para  contextualizá-la e permitir, tanto aos que conhecem o local como aos que não conhecem, percorrer as múltiplas janelas que se abrem à interpretação que pode se deter em aspectos, entre outros, estéticos e sociais.
Trata-se de uma bicicleta que permanece costumeiramente no mesmo lugar. Mas foi apropriada pela fotografia, ganhando uma vida que não possuía, tornando-a visível e a retirando do anonimato.
Faço por fim uma observação. 
Sem palavras , legenda que acompanha a foto, remete à idéia de que a fotografia se explica por si só e que quaisquer palavras seriam excessivas.
Prefiro não dizer que uma boa fotografia vale por mil palavras dispensando-as.. 
Boas fotos, opto por acreditar, são justamente as que mereçam mil palavras, e aqui ensaio algumas, e  possam ser vistas sem cansaço .

sábado, 14 de abril de 2012

A Criação da Bicicleta

Deus pode ter criado o homem.
Mas foi o homem que criou a bicicleta.
Como resultado de sua inteligência, de sua engenhosidade.
Primeiro, aliás, criou a roda.
As primeiras bicicletas eram estranhas, muito altas, com rodas enormes.
Já permitiam, contudo, que seus condutores, com o simples movimento de pedalar, percorressem com rapidez grandes distâncias.
E à medida que as bicicletas foram se tornando cada vez mais "humanizadas", ou seja, de mais fácil emprego, puderam, num dado momento, ser utilizados por crianças.
Neste momento homem e máquina pareciam terem nascidos juntos disfrutando, como crianças, a mesma infância.
A única particularidade foi destas pequenas bicicletas disporem de três rodas e serem denominadas velocípedes.
Desde então, homem e máquina tornaram-se cada vez mais inseparáveis.
A tal ponto que há quem queira sustentar, tal a humanização da bicicleta, que ela também é uma criação divina.
Isto, contudo, não procede.
O mais provável é que de alguma forma Deus ele próprio fosse também um ciclista e gostasse de dar suas pedaladas.   

Saias e Bicicleta

Nada mais romântico do que ver uma mulher pedalando de saia.
Mas saia longa e numa bicicleta feminina. 
Do contrário o resultado pode ser desastroso especialmente se a saia não for longa.
E se, ainda por cima, for justa e a ciclista estiver procurando subir na bicicleta vamos nos deparar, quase certamente, com uma daquelas situações em que o charme construído em torno da mulher sofre um sério abalo.
Para recuperar talvez apenas se demonstrar ser uma boa ciclista.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Um Ciclista Anônimo

Receio que o que me atrai nesta cena em Montevideo possa não atrair mais ninguém.
A imagem não atende nenhum padrão vigente que a torne razoável sob o aspecto fotográfíco.
Para mim, no entanto, tem um valor próprio.
O ciclista da cena puxa um reboque no qual carrega coisas importantes para ele.
Não pude definir bem se utensílios e pertences ou lixo que coleta.
Mas é Sexta-Feira Santa e pelas ruas vazias da Ciudad Vieja este homem , enquanto a cidade dorme, movimenta-se à busca de seu sustento e dos que possam depender de suas pedaladas.
O valor da foto, para mim, está também no fato de que tive que correr para chegar na esquina a tempo de registar sua passagem já meio desaparecendo. Mas acho que não corri o suficiente,  por isto a figura do ciclista já quase saindo do quadro.
Agora, cada vez que olho para o seu vulto na foto fico pensando: eis aí , como não poderia haver outro tão marcante , um autêntico ciclista anônimo. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Vitoriana

As formas de pedalar são infinitas.
Quando não se efetivam como coisa concreta,como rodar sobre asfalto ou sobre  pedras, nem por isto deixam de materializar-se sob formas diversas nas quais predomina, não o esforço físico, mas a imaginação.
Ou quem sabe o desejo, a libido.
Não tinha me detido mais demoradamente a considerar isto mas, é claro que há elementos que conferem à bicicleta, em determinadas situações, um elemento de sensualidade e até de erotismo, muito claro.
Não preciso dizer que é o caso desta foto.
O que me faz também lembrar que, se pedalar nos dá tanto prazer, há outros preferíveis.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Esperança



Tenho uma espécie de esperança, meio secreta, de que o mundo poderá ser melhor.

Conforme dizem faz muito tempo que Aquele que estava destinado a nos salvar já nos visitou mas os homens continuam explorando uns aos outros e se exterminando em disputas cruéis.

Não sei exatamente como isto vai acontecer, na verdade não sei nem se vai acontecer, mas quando pedalo me agrada acreditar que um outro Salvador ainda virá, carregado num berço sobre rodinhas atrelado a uma bicicleta, para nos conduzir a um mundo melhor.    

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pedalando com a Violência


Jurei que ia falar de coisas alegres.
Da alegria de subir numa bicicleta e sair por aí.
De manhã cedo, bem cedo, acompanhando o surgir do dia e sentindo o ar matutino refrescando o rosto. Ou, mais tarde, em meio ao tráfego, esquivando aqui e ali para conseguir avançar. Ou, ainda, durante a noite, talvez na companhia de amigos para uma pedalada descontraída, conversando, numa conversa que pode até permitir uma parada para tomar alguma coisa num bar de esquina.
Jurei.
Não queria correr o risco de afugentar os leitores que foram surgindo, um a um, até formar um pelotão já numeroso de ciclistas, anônimos como eu, que mantém todos, no entanto, a característica comum, o que já nos tira do anonimato, de entendermos que estar pedalando sentado num selim é uma experiência inigualável.
Jurei, mas aí surgiu Pinheirinho no meu caminho.  E, de novo, não tive como deixar de associar a imagem da bicicleta às situações de drama social em que se vê envolvida.
No caso um drama de dimensões e significados que ainda nos resta entender em toda a sua gravidade, em toda a extensão de suas implicações no terreno humano, social e político.
E ali , presente, inseparável destes momentos, encontro a bicicleta. Em meio a outros bens e utensílios, ao lado de eletrodomésticos, butijão de gás e até um banquinho de madeira, como testemunha do drama.


Testemunha do assalto numa manhã de domingo ( quem disse que o domingo é sagrado?), da investida bárbara, da destruição, da violência respaldada pela lei e pelo governo através da mão armada, com requintes fascistas, promovida contra lares, famílias,  vidas que se constituíram em torno de referências que, de um momento para o outro, foram devastadas, jogadas por terra.     
A revolta não vai passar, nem quero que passe, nem a amargura, mas volto aos temas amenos. A bicicleta existe para isto, para nos tornar mais simples, mais humanos, mais amigos.
A bicicleta existe para nos salvar de um mundo que, diariamente, dá passos rumo à própria destruição.  

sábado, 21 de janeiro de 2012

Beleza Triste

Sei que já disse que nunca posso prever o que vai me inspirar numa cena.
Simplesmente vou descobrindo , um pouco ao acaso, alguma coisa que me evoca uma lembrança de algum outro momento, de algum outro lugar, talvez da infância, talvez, se quisesse especular, de uma outra vida.
Esta lembrança, sem que eu saiba bem como explicar, muitas vezes é triste ou, então, para quem sabe melhor expressar, traz consigo uma melancolia.
Mas que posso fazer?
Teria que não ver a criança triste, o bairro pobre, as bicicletas maltratadas, o abandono presente.
Que posso fazer ?
Cegar meus olhos, bloquear minha consciência, ignorar minha tristeza?
Busco respostas quanto ao que posso fazer se, às vezes, a beleza é triste, tão triste, que quase deixa de ser beleza.