sábado, 1 de outubro de 2011

As Cinzas de Puyehue

Enquanto pedalo meus pensamentos oscilam entre lembranças algumas bem antigas, até da infância, e planos futuros.
Às vezes pedalo sem um objetivo ou um destino específico. Pedalo como que por pedalar, como uma forma de ocupando o corpo com uma atividade determinada, libertar o espírito para outras incursões.
Ultimamente tem me chamado a atenção as notícias de catástrofes. Distingo as naturais, algumas inevitáveis, de outras nas quais a intervenção humana tem influência em suas causas. Mas há também momentos em que os dois tipos se encontram num cenário de apocalipse. Vivemos um período em que de forma sucessiva estas catástrofes apresentam-se a nossos olhos como o anúncio de experiências terríveis .
Sigo pedalando, o trecho que percorro me leva em direção à praia e posso ir adiante com segurança utilizando uma faixa que segue ao lado da pista.
Ocorre-me que as catástrofes naturais impõem-nos um cenário que não é mais terrível do que aquele provocado por nós mesmos.
Se a cena de toda uma região coberta pelas cinzas do vulcão Puyehue nos estarrece, ela não é mais dramática, pelo contrário torna-se até branda, diante do quadro de miséria e destruição provocada pelo homem.
As maiores catástrofes não são , portanto, as naturais mas as que tem sua origem na ambição, na exploração que o mundo moderno segue praticando .
Ou então na sua ignorância, nas suas crenças e superstições irracionais . As guerras, os conflitos territoriais ou religiosos, a fome, costumam apresentar-se como consequências imediatas
Manuel Antuña, jovem habitante de Villa La Angostura, uma das povoações mais afetadas pelo vulcão Puyehue, dá seu depoimento declarando que  "al principio, uno sentía desesperación por no saber qué estaba pasando. El primer fin de semana, un vecino salió con un megáfono a decir que se venía el fin del mundo y comenzó a circular el rumor de que estaba por ocurrir un gran terremoto. Muchos abandonaron la ciudad y otros durmieron en los autos". Este testemunho me faz pensar que os automóveis, em um momento de extrema destruição, poderiam ter pelo menos esta utilidade, servirem de refúgio e abrigo.
Neste momento dou-me conta de que já estou na praia.
Ainda é cedo e ela se encontra vazia. Um ou outro transeunte e os permanentes cachorros. Infelizmente nada se tem feito para resolver esta situação. Cachorros abandonados também me passam uma sensação de abandono, de terra devastada..
Afora isto, no entanto, a cena em nada lembra uma catástrofe..
Deixo-me, portanto, por alguns instantes , ficar a olhar a paisagem que me leva para um mundo em que a paz pode se refugiar.
Mesmo me sentindo um pouco culpado por poder me proteger desta forma, deixo o sol bater em minha face e tenho a deliciosa sensação de que a vida pode ser boa.
Especialmente se neste momento tenho a companhia , acomodada de meu lado, de minha bicicleta.
(foto AFP)

2 comentários:

  1. Traduziste em breves palavras, uma das angústias humanas modernas(falta de crença no próprio ser), a companhia da solidão e a delícia de estar vivo!!! Parabéns, maravilha de texto!!!!

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  2. Ciclistas Anônimos1 de outubro de 2011 08:02

    ... escrevi isto aliviado por não ter chegado o fim do mundo e confortado por não necessitar dormir no carro...

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Talvez não saiba mas pode ser que tenhamos, em outros momentos, pedalado juntos. Pedalado em todos os terrenos que a bicicleta propicia entre eles os da criação e participação. Se chegou até aqui é quase certo que sim.Escreva seu comentário. Ele é parte fundamental deste processo.